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Bebês em risco de autismo e outras síndromes: seus pais e a formação de profissionais da saúde.

Bebês em risco de autismo e outras síndromes: seus pais e a formação de profissionais da saúde. Marcilena Toledo.

A psicanálise, desde seu fundador Sigmund Freud (1856-1939), médico neurologista, traz enormes contribuições para que se possa compreender o funcionamento do aparelho psíquico dos seres humanos. Considerando que a estrutura psíquica do sujeito não vem pronta, mas é um processo complexo que se dá através da interação do bebê com o outro (Freud, 1976), pode-se questionar a relevância de uma clínica com bebês para intervir a tempo de prevenir uma estruturação psíquica que dificulte a entrada desse bebê no mundo. Dar suporte aos familiares e buscar profissionais com conhecimentos atualizados e bem capacitados para diagnosticar e intervir já a partir da primeira infância (0 a 18 meses), tal como exige a Lei nº 13.438 de 26 de abril de 2017 que altera a Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990, faz-se necessário e urgente para cumprir um direito já reconhecido. Neste sentido, é que uma escuta psicanalítica, que considera a criança como sujeito de desejo, pode capacitar o olhar desse outro envolvido com o bebê (família, profissionais da saúde e educação), para o reconhecimento precoce de sinais de risco de sofrimento psíquico. Pesquisas científicas realizadas desde os anos 90 nos laboratórios de importantes universidades na Europa e atualmente também no Brasil, produziram ferramentas importantes e de fácil acesso como o protocolo PREAUT (Lasnik, 2013) desenvolvido na França e também o IRDI - Indicadores de Risco para Desenvolvimento Infantil de 0 a 18 meses (Kupfer, Szejer, 2016) implementados por pesquisadores brasileiros financiados e aprovados pelo governo brasileiro. As pesquisas nos mostram que o bebê, desde seu nascimento é capaz de se comunicar e alguns sinais podem indicar que o infans esteja se encaminhando para uma estruturação autística ou mesmo manifestando sinais de que alguma coisa não está bem (Trevarthen; Aitken; Gratier, 2019). Apesar das pesquisas existentes e da disponibilidade de ferramentas apropriadas ao alcance será que os profissionais, principalmente os da área da saúde que atendem diretamente os bebês e seus familiares, estão devidamente capacitados para reconhecer os riscos de sofrimento psíquico na primeiríssima infância (0 até 18 meses) de acordo com a Lei nº 13.438 de 26 de abril de 2017? As instituições educacionais de graduação e pós-graduação buscam capacitar seus alunos para este momento tão delicado e fundante para o bom desenvolvimento infantil? O que mais se encontra no discurso de médicos, enfermeiros, educadores e familiares é uma grande preocupação com o bem estar físico, seguindo os marcos do desenvolvimento neurobiológico e pouca ou quase nenhuma atenção para o desenvolvimento psíquico do bebê (Costa, 2019). Momento crucial para evitar um futuro diagnóstico de autismo ou outra síndrome que poderia, em muitos casos, não ocorrer. O assombroso número que mostra o crescimento de crianças diagnosticadas com autismo é hoje, uma preocupação mundial. Fatores como as modificações nos critérios de diagnósticos DSM-5 (2014) e CID (2010) aliado a uma epidemia diagnóstica são alguns pontos relevantes a serem considerados para se pensar essa problemática. É sabido, através de pesquisas de diferentes áreas do saber, que para que uma criança venha a ser diagnosticada autista deve existir uma predisposição genética. Do contrário ela não o será. Mesmo havendo essa predisposição, hoje é possível afirmar que ainda assim, não seria certo que ela entraria no quadro de autismo. Atualmente, a ciência ainda não conseguiu identificar qual o fator genético que seria responsável por ele, não havendo nenhum tipo de exame capaz de identificá-lo. O diagnóstico sempre deverá ser multidisciplinar e nunca fechado antes dos 3 anos de idade. A epigenética, área das ciências médicas que estuda os fatores ambientais que influenciam nas alterações dos genes, juntamente com a conhecida plasticidade cerebral do bebê em seu primeiro ano de vida vêm fortalecer a teoria psicanalítica sobre o processo de estruturação psíquica e a importância de se intervir ainda no primeiro ano de vida do bebê, sem esperar que o quadro se cristalize mais adiante (Jerusalinsky, 2015). A patologização da infância e a desmedida medicalização infantil é uma realidade da contemporaneidade que requer um olhar crítico e ético devido as consequências danosas que vêm acometendo as crianças e suas famílias, as instituições escolares e a sociedade como um todo. Sem desconsiderar um real aumento dos casos de autismo ou de traços autísticos em crianças na atualidade, um diagnóstico ético não prescinde de uma equipe multi e transdisciplinar para diferenciar um caso real de autismo daquele sujeito que apresente apenas traços autísticos.

Esses traços podem estar presentes em um sujeito devido a inúmeras outras causas, oriundas de um retraimento relacional durável (Bernardino, 2016), que implica considerar todo um contexto de muitas variáveis. Ao avaliar e tratar o sofrimento de um novo sujeito, uma terapêutica ética exige práticas que não o rotule dentro de uma patologia, fixando o sujeito neste lugar em um momento em que ainda está em constituição. Corre-se o risco de determinar o destino de um bebê deixando-o fadado a ser o rótulo que lhe foi oferecido. A psicanálise de orientação lacaniana diferente do ponto de vista médico que vê o autismo como uma patologia. Ela vem considerar que o autismo é um modo de ser que o sujeito encontrou para se colocar no mundo. Segundo Kupfer (2016) e Doufor (2005), uma posição autística pode ser uma resposta a um movimento de dessubjetivação e de dessimbolização marcando o mal estar contemporâneo já anunciado por Freud em 1930 em “O mal-estar na civilização”. Mal-estar oriundo das formas de relações estabelecidas entre o sujeito e o Outro. Visto assim, uma intervenção precoce pode mudar o rumo de uma vida (Zimmermann, 2017). Do ponto de vista médico, através do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) estabelecido pela Associação Americana de Psicologia – APA (2014) o Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição resultante de uma complexa desordem no desenvolvimento cerebral e engloba o autismo, a Síndrome de Asperger, o transtorno desintegrativo da infância e o transtorno generalizado do desenvolvimento não-especificado. A condição acarreta modificações importantes na capacidade de comunicação, na interação social e no comportamento. Estima-se que 2 milhões de pessoas no Brasil sejam diagnosticadas com TEA. Porém, até hoje nenhum levantamento foi realizado no país para identificar essa população. (Agência Senado, 2019).



Psicóloga; Psicanalista membro da ATO Escola de Psicanálise; Mestra em Educação; Professora universitária. Contato: (35) 9 9902-6464 Email: marcilena@gmail.com

Referências Agência Senado. Senado notícias: Censos demográficos terão dados sobre autismo. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2019/04/23/censos-demograficos-terao-dados-sobre-autismo Acesso em: 11/06/20 American Psychiatric Association. (2014). Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais - DSM-5 (5ª ed.) Porto Alegre: Artmed. BERNARDINO, L. M. F. OS “TEMPOS DE AUTISMO” E A CLÍNICA PSICANALÍTICA Estilos clin., São Paulo, v. 21, n. 2, maio/ago. 2016, 412-427.


COSTA, F. M. A. O. (2019). Detecção precoce dos sinais de sofrimento psíquico: uma via para a não patologização. (Trabalho de Conclusão de Curso, Universidade do Vale do Sapucaí, Pouso Alegre, MG).

DCD (Centers for Disease Control and Prevention) (2010). Identifies Of Autism Spectrum Disorder. Disponivel em: https://www.cdc.gov/nc bddd/autism/addm.html Prevalesnce. Acesso em: 05/06/20

DOUFOU,D. R. A arte de reduzir as cabeças. Sobre a nova servidão na sociedade ultraliberal. Rio de Janeiro: Companhia de Freud. 2015.

FREUD S. O ego e o id. Rio de Janeiro: Imago; 1976

JERUSALINSKY, A (Org). Dossiê autismo. 1. ed. São Paulo: Instituto Langage, 2015. 480 p.

KUPFER, M.C.,SZEJER, M. (Orgs). Luzes sobre a clínica e o desenvolvimento de bebês: novas pesquisas, saberes e intervenções. 2. ed. São Paulo: Instituto Langage, 2016. 368 p.

LAZNIK, M. C. A voz da sereia: o autismo e os impasses na constituição do sujeito. Salvador: Ágalma, 2013. 230 p.

TREVARTHEN,C; AITKEN, K.J; GRATIER, M. O bebê: nosso professor. São Paulo: Instituto Langage, 2019. 96 p.

ZIMMERMANN, V.B. ‘Encontros’ necessários para a constituição psíquica. In: OLIVIERA, E. P. E COHEN, D. (org.). O bebê e o outro: seu entorno e suas interações. 1. Ed. São Paulo: Instituto Langage, 2017, p. 211-217.

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